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A Morte é uma moça bonita

Ela chegou no meu terceiro dia acamado. Está ali, acocorada na quina da parede. Sente o lugar. Onça espiando os domínios antes de descer no rio. Repara no encaminhamento que o povo me dá. Mede as queixas, os ais, as fungadas de olho seco dos filhos e sobrinhos.
Pego meu terço pendurado na cabeceira. Não vou amolar Nossa Senhora com sonhos de cura. A moça chegou, já disse. Espanta agora a varejeira como se uma mosca pudesse lhe abusar. Brincando de ser gente viva. Eu vou rezar é pra acordar os anjos. Pra um mensageiro entregar a notícia que estou chegando.
Enrosco os credos, as glorias e os pais nossos. A mente juntando alguma frase que se preste a salvação. “Ó clementíssima Virgem Maria, minha soberana e Mãe, augusta Senhora do Monte Serrat, venho lançar-me no seio da vossa misericórdia.”
A mão dura atrapalha a passagem das contas, os dedos numa rijeza de madeira boa pra fogueira, teso e seco. “E ponho, desde agora e para sempre, a minha alma e o meu corpo debaixo da vossa salvaguarda e da vossa bendita proteção”. Morrer é endurecer as carnes, entrevar as juntas, ressecar a pele. A água não acha os caminhos, cria limo e depois apodrece.
Não encaro. Vejo pelo rabo do olho. Podia ser uma dessas mulheres daqui, carregando água do açude com o pano enrodilhado na cabeça. A força de sustentar o peso a cada passada no chão vermelho. O cabelo dela é mais liberto, espalhado pelos peitos, decreta presença como um pé de salgueiro. A diferença é o ar enfeitiçado de quem conhece o fim humano.
A primeira vez que soube dela, foi quando minha bisavó cuidava de um menino com febre terçã. Mesmo com todas as ervas colhidas na hora certa e toda atenção que minha bisavó colocava na tarefa de curá-lo, o menino piorava.
Em meio a idas e vindas do fogão para o quarto, de panos, unguentos e chás, a curandeira é vencida pela pergunta da criança:
-Quem essa moça na cama, sorrindo pra mim?
Ninguém via, mas sabiam do que se tratava. A mãe danou-se a chorar. O pai pôs o chapéu na cabeça e se embrenhou no mato.
-Que moça bonita mãe, quem é?
Naquele quarto cheirando a guiné, quioiô e sebo de vela, só os olhinhos em fim de vida podiam vê-la. No fim suspendeu a mãozinha pro tato que era só dele.
Eu agora sou o moleque. Sou eu quem venho ali com um capim na mão futucando buraco de gongo. Minha mãe areando panelas na pia do lado de fora da casa e meu pai indo para feira com um caixote nas costas.
Sou eu ali, rapazote, barba rala querendo respeito dos homens e dengo das meninas. Marli no São João, sangrando a bananeira com a ponta da faca pra saber com quem ia casar. Casou comigo. É essa mulher que vai levar minha mão e entregar à nova esposa.
A moça sentou na cama, está mais nítida, posso ver os olhos de jabuticaba, o meio sorriso, a pele de jenipapo. Que não me engasgue os caroços. Que ela fermente essa ida com o licor que vão beber quando eu atravessar.
Ai, essas paredes que viram meus primeiros desequilíbrios, engatinhar, levantar, testar o caminho, o desacerto dos pés na bebedeira, registram a ida, o passo sem retorno.
Marli puxa o credo. Seu último afazer.
A moça roça minha pele de velho, respira de mim meu último ar.


*O texto contém trechos da Oração a Nossa Senhora de Montserrat
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